Conto

O guarda-chuva

Ouviu tocar, distante, o interfone. Ergueu a cabeça do travesseiro e olhou para o celular para ver as horas. Quem pode ser às 6h30 de um sábado?? Pensou, enquanto cambaleava com a dormência da perna esquerda até o interfone na cozinha.

Seu Ângelo, está subindo uma moça que pediu para não ser identificada.

Correu, já sentindo a perna novamente, se arrumar, jogou uma água no rosto, vestiu uma camisa e calçou um chinelo. A campainha tocou e ele correu até a porta, ao abrir só pode ver a porta do elevador se fechando. Sem entender nada abaixou a cabeça e deu de cara com seu guarda-chuva.

Ao fechar a porta, guarda-chuva em mãos, pensou rapidamente e correu até a janela. Viu o vulto dela se distanciando, entrando no carro e partindo. Suspirou, pensou em ligar, preferiu não. Sentou no sofá da sala e lembrou-se do dia anterior. Chovia forte e ele estava na porta da empresa sem saber bem como sairia dali. Ela lhe oferecera uma carona até a estação. Ele aceitou. No caminho os olhares e as conversas logo demonstraram que as afinidades do passado estavam presentes. Seu charme ainda o encanta de um jeito incompreensível. Deixaram-se levar pelas lembranças de momentos de amizade sinceras e troca de olhares envolventes e suas mãos acabaram se encontrando. Foram de mãos dadas até a estação, como se aquele carinho nas mãos fosse um elo com um passado, guardado em segredo por eles, preso na malha do tempo e da lembrança. Ao parar o carro para se despedirem, bastou um olhar e um abraço, e tudo ficou calmo dentro dele, apesar do turbilhão de sensações.

Voltou da lembrança daqueles momentos quando seu celular tocou. Correu atender. Do outro lado da linha ouviu uma voz, distante, dizer

não quero nada seu comigo, só seu coração.

E desligou. Olhou novamente para o guarda-chuva, pegou o telefone, ligou para ela. Ao atender, suspirou e concluiu

se não guardas a chuva, guarda-me bem em ti.