Médio menor

Abaixo do medíocre
é onde está você,
que se julga poderosa,
detentora do saber.

Santa repetição!
Vago explanar!
Sólida enrolação,
tão dura de aturar…

A mesma piada.
Só muda a entonação.
Todo dia, mais enrolação.

A mesma frase sempre,
contradiz a enunciação.
Didática: mediocrização.

Anúncios

Lições sobre a solidão

Entrou na sala, fechou a porta da sala e deixou sua pasta sobre a mesa. Vestia uma camisa social azul, calça social preta, cintos e sapatos combinando. Um verdadeiro cavalheiro. Escreveu na lousa uma frase de Rousseau:

É sobretudo na solidão que se sente a vantagem de viver com alguém que saiba pensar. [Jean Jacques Rousseau].

Fitou cada um dos vinte e três alunos do primeiro semestre de letras como se os encarasse para um desafio. Foi então que aconteceu! Num salto subiu na mesa e começou a vociferar:

Vocês, estudantes da vida, pensam, estar plenos de si, diante dos desafios que se apresentam na universidade?

Loucos!

Isso que são!

Saibam que a solidão é aquela que te abraça sem você pedir e nunca te abandona.

Ela é fiel.

Esqueça os amigos, esqueça os amores, esqueça a família!

Quando decides trilhar o caminho do saber, escutem!

Escutem bem!

Quando decides trilhar o caminho do saber, é na solidão que te encontrarás e, inevitavelmente, lançará todos à tua volta!

Desceu da mesa, foi até o quadro e escreveu:

Chaque homme est seul e tous se fichent de tous e nos douleurs sont une île déserte… (Albert Cohen),

Começou a caminhar entre os alunos e vociferou:

Só!

E ninguém se importa, ninguém liga a mínima.

Vocês serão solitários escritores, redatores, professores.

Foda-se você!

Fodam-se os outros!

Sós.

Vocês estão preparados para a solidão?

Porque essa é a vida que vocês vão levar!

Vocês serão sós!

Vinte anos se passaram da primeira aula do professor Roberto e, no reencontro da turma, todos disfarçavam a solidão que insistiam em carregar dentro de si, mas que era visível em seus olhos, em suas almas, em seus sorrisos pálidos. Cerca de vinte adultos, maioria casados, um único solteiro, reunidos em um salão, recordando eventos, aulas e discursos inflamados de um tempo que não volta mais.

Após alguns instantes de conversas, as atenções se voltam para a porta do salão, por onde entra um senhor de cabelos ralos e brancos, que fita, um a um, cada rosto que ele já vira e convivera por quatro anos. Do canto da sala, Marcelo, sempre provocativo, olha para o professor e diz

Professor Roberto, daqui o senhor parece o Mestre Yoda!

Grande boca fechada sabedoria sua será, pequeno Marcelo. Tempo não conseguiu você mudar.

A risada foi geral. Calmamente, o professor se dirige até uma mesa, no canto do salão, suspira, puxa uma cadeira e, para surpresa de todos, sobe na mesa! O silêncio é geral. As esposas e maridos daqueles alunos não compreendem o que está acontecendo. Fitando cada um de seus alunos nos olhos, ele vocifera como nos velhos tempos:

Daqui eu vejo os frutos da minha primeira aula.

Só posso dizer uma coisa: eu avisei vocês!

A solidão está nos poros de vocês e todos temem essa velha amiga.

Apenas um de vocês compreendeu: mais saber, mais solidão.

Amar não é uma obrigação, não é uma exigência social, amar é abraçar a solidão a ponto de fazê-la desaparecer entre teus braços e o da pessoa que desejas, então te sentirás livre para viver, pois o amor não te prende em obrigações.

O amor te liberta, te faz respirar, te faz querer, te faz esperar uma vida, se necessário, para amar.

Desceu da mesa, abraçou cada aluno, cada esposa e esposo, cada filho e filha. Saiu como entrou, discretamente, sem barulho, mas chamando a atenção de todos.

A noite transcorreu como sempre foram os reencontros da turma: solidões disfarçadas em maridos, esposas e filhos. Mas dentro de cada um, ela ainda gemia, ela ainda gritava, ela ainda atormentava. Ela os seduzia, ela os conquistava, ela está em nós. A solidão.