Um encontro, uma confissão

Eram dez horas da manha de uma quinta-feira quando o interfone de seu apartamento tocou. Ângelo havia levantado, tomado seu café da manhã e já estava em sua mesa de trabalho, em seu escritório, no apartamento onde vivia, em Strasbourg, França, próximo à fronteira com a Alemanha. Sem nunca ter recebido uma visita sem aviso prévio, desde que se mudara de São Paulo para Strasbourg, ele atende surpreso.

Oui?

Ângelo? É Laura, sua prima de Sampa.

Laura? Sobe menina!

Rapidamente Ângelo destranca a porta do apartamento e aguarda sua prima chegar pelo elevador.

Meu Deus, Laurinha! Minha “laurinda” O que você faz perdida aqui?

Diz Ângelo, já abraçando a prima e surpreso com vê-la ali. Sorrindo ao ver que Ângelo lembrava-se de como ele a chamava quando criança, ela o abraça.

Ah, Ângelo, eu me mudei pra Milão faz um ano. Estava lá, sozinha, quando meu pai me passou seu endereço. Como não tinha seus contatos, vim na cara e na coragem.

Sentados no sofá, os dois passaram o dia conversando sobre seus projetos e sonhos no velho continente. Laura havia se formado em design em São Paulo e recebera uma proposta de emprego em Milão. Não pensou duas vezes, terminou o namoro, pegou suas coisas e veio. Ele, viúvo há mais de três anos, recebeu uma proposta de trabalho em Strasbourg: escrever semanalmente para o jornal da cidade e também duas vezes por semana para o portal de notícias. Vendeu tudo o que tinha e veio.

Bom, primo, tô com o fim de semana livre. Posso ficar até domingo.

Claro, respondeu ele. Vamos fazer o seguinte: preciso terminar o texto de hoje, depois, também estarei livre. Me dá cinco minutinhos que já podemos continuar a conversa. Fica a vontade, liga a TV, fuça na casa toda.

Beleza.

Ângelo volta para sua mesa e seu texto. Laura fica no sofá, liga a TV, roda os canais, desliga, vai até a cozinha. Admira-se da arrumação. Volta para a sala, olha atentamente os livros sobre a mesa de centro. Todos de autoria do primo. Vai até o quarto dele, olha para a cama, ainda desarrumada, vê um quadro repleto de fotos e chega mais próximo. Num canto do quadro, uma foto dos dois abraçados, no aniversário de quinze anos dela. Seus olhos marejam. Ela mexe nas miniaturas sobre a cômoda, olha ao redor, suspira. Será que ele sabe o que realmente me trouxe aqui? Será que ele deve saber? Laura, doze anos mais nova que o primo, era perdidamente apaixonada por ele. Amava seu jeito, seu cheiro, seus textos, seus abraços. Sonhava diariamente com ele. Paixão de adolescente que cresceu com o tempo, a ponto de não mais caber nela. O que a fez viajar, na primeira folga que teve, até Strasbourg. Volta para a sala, tira da bolsa um caderno. Folheia-o com calma. Abre numa página onde com um texto de sua autoria. Nisso, Ângelo volta de seu escritório para a sala.

Pronto, terminei meu texto.

Ao olhar para Laura, vê seus olhos marejados.

Ei, Laura, tudo bem?

Tentando disfarçar as lágrimas que já começavam a rolar, ela pede que ele se sente ao lado dela e que apenas ouça o que ela tem para dizer.

Primo, tenho que contar uma coisa para você. Como sabia que não teria coragem, resolvi escrever.

Suspira, toma fôlego, sorri para ele, e começa a ler.

“De tudo que tenho para dizer”

De tudo que tenho para dizer, separei o que em você mais me marca e fascina.

Lembro-me da primeira vez que desejei ter você ao meu lado, como meu namorado. Eu tinha doze anos, você vinte e quatro. Antes disso, porém, quando eu tinha seis anos, minha mãe gravou um vídeo em que ela perguntava o que eu ia ser quando crescer. Sabe o que respondi? “vou crescer e casar com o Ângelo, ué”. Dou risada sozinha toda vez que lembro. Cresci, namorei outros rapazes, fiz faculdade, me mudei para Milão. Agora são oito horas da manhã e estou sentada na estação de Strasbourg, criando coragem para seguir até sua casa. De tudo que tenho para dizer, quero te dizer que você é meu sonho de infância, de adolescente, de mulher. Amo seu sorriso, amo o jeito que me chama de “Laurinha, minha ‘laurinda’”. Tá certo que aos quinze anos eu já não via mais graça nisso, mas hoje fico torcendo para repetir para mim. Amo seu abraço, acolhedor, quente, forte. Tentei fugir disso tudo, tentei esquecer, tentei namorar outros rapazes, mas era seu cheiro, seu jeito, suas palavras que me prendiam, me tornavam – e me tornam – sua. De tudo que eu tenho para dizer, quero que guarde apenas uma frase: eu te amo Ângelo, eu te amo demais!

Atônito, olhos fixos nos lábios de Laura, Ângelo emudece. Ela o olha atentamente, esperando dele alguma reação, alguma palavra. Os segundos de silêncio parecem horas. Ângelo levanta-se, passa a mão nos cabelos, caminha até a sacada, volta, olha para Laura sentada no sofá com os olhos fixos nele. Mil lembranças passam por sua mente. Caminha até Laura, toma-a pela mão e a leva até o escritório. Lá, mostra na parede, acima de seu computador, um quadro com uma carta, escrita por Laura, então com quatorze anos, em que fala do quanto ele era importante para ela.

Eu a emoldurei assim que cheguei a Strasbourg. Sabe por que eu a pus num quadro? Porque foi a declaração de amor mais genuína que recebi na minha vida. Laura, eu sou mais velho, sou seu primo, sabe o que isso significa?

Que vamos ter que fazer exames de sangue pra ter certeza que nossos filhos nascerão com saúde? Deixa eu te conquistar, Ângelo. Quero ser sua.

Com os olhos fixos nele, Laura, uma bela mulher de olhos escuros, cabelos curtos e corpo envolvente se aproxima dele, o abraça e, suavemente, desliza seu rosto sobre o dele até que seus lábios se encontrarem. Nela, há um turbilhão de emoções impossíveis de se descrever. Nele, desperta um olhar diferente para aquela que ele só via como a prima adolescente que lhe escrevera lindas palavras. Naquele beijo, numa quinta-feira fria de outono, Ângelo sentiu seu corpo se arrepiar novamente, como a muito não sentia. Laura, por sua vez, viu seus sonhos começarem a despertar, num beijo, num encontro, numa confissão.

Anúncios