Minha sina

Passo horas olhando para o teclado. Tento encontrar a palavra para descrever o impacto que causa em mim quando penso em você. Ainda não consegui definir quem de nós dois é o mais egoísta. Você tem meus textos, meus versos, minha alma. E eu? O que tenho? A lembrança de um nascer do sol, a memória de um brilho no olhar e algumas poucas confissões. Essa que é a verdade. Eu sempre me entreguei mais que você. Eu sempre recuei quando você pediu. Eu sempre atendi o que você me pedia. Eu sempre fui submisso. Você nunca me respeitou por isso.

Tudo que eu queria era um sinal de vida, um “alô”, um “oi”, um “estou bem nos braços de alguém”, mas o que tenho é o desprezo. Reclamo? Não, apenas constato. Você me seduziu, me consumiu, me feriu. Tudo com a intensidade que uma grande paixão proporciona. Tudo com a dor que uma grande paixão pode causar. E o que restou? Dor, dor e mais dor. Tudo dói. A ausência a socar meu estômago, a indiferença a chutar minha cara, o desprezo a levar-me ao chão. Dói, sabia? Mas essa dor eu não quero para você. Essa dor é minha. Eu não revido. É minha sina carregar a dor que me você me causa.

Daí um dia você volta, conta uma história qualquer e me beija. Que merda! Eu me entrego a um beijo como se toda a dor fosse nada. Como se você soubesse tudo da minha vida. Eu não sei nada de você! Você vasculha minha vida, domina meus pensamentos e não se deixa revelar em nada para mim. Daí eu me perco em meus sonhos, devaneios de quem tece suas próprias teias de paixão e amor mal resolvidos e termina como vítima de si mesmo. Tento respirar. Ainda procuro a palavra para descrever o impacto disso tudo. Só me vem seu nome à mente. Tudo o que eu queria era que você parasse e percebesse que o mundo não gira por você, que eu te quero agora e que essa ansiedade que te leva a me ferir é a ausência de um amor: o que falta em você sou eu.

Queria dizer que te amo, mas a dor que você me causa não deixa.

Queria dizer que te odeio, mas o amor que tenho por ti não deixa.


Escrita ao som de “Sei de mim” e “Pra você dar o nome”, nas doces vozes de Pedro Mariano e Luíza Possi

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Quando sonhos despertam

Levantou-se de sua cadeira, guardou o laptop na pasta e fechou a gaveta de sua mesa, passando as chaves nela. Abriu a pasta novamente, certificando-se que pegara o carregador do laptop, sua carteira e alguns papeis amarelados. Olhou ao redor, respirou fundo e saiu da sala. Passou pela secretária despedindo-se.

Roberta, volto só segunda-feira. Pelo que vi na agenda, nada de urgente nem amanhã, nem quinta, nem sexta.

Foi até a sala de seu braço direito na empresa. Mariana foi a primeira funcionária que Ângelo contratou para sua editora. Depois de três anos batalhando muito sozinho, promoveu um processo seletivo e contratou Mariana por dois motivos: a vontade de aprender e o brilho nos olhos quando falava de sua relação com os livros. Foi com essa paixão pelos livros que Mariana conquistou a confiança de Ângelo. Treze anos se passaram desde a abertura da empresa, dez desde a contratação de Mariana.

Ângelo bate na porta da sala de sua Gerente Editorial.

– Com licença Mariana.

– Oi Ângelo, pode entrar. Está de saída?

Perguntou ela reparando a pasta e as chaves nas mãos do chefe.

– Mariana, você trabalha comigo há dez anos. Você sabe por que eu te contratei?

– Não faço ideia. Sempre me perguntei o que você tinha visto naquela menina que gosta de lê e que tinha só dezessete anos.

– Pois é. Por incrível que pareça, eu lembro bem do dia em que te entrevistei. Sabe o que vi? O amor pelo livro. Não era só uma menina que gostava de ler, era uma menina que amava, e ainda ama, os livros. Vi isso no brilho dos seus ao falar sobre o que era o livro para você.

– Nossa – suspirou Mariana com a voz embargada – isso realmente mexeu comigo anjinho.

– Pois é Mariana. Agora, dez anos depois, acho que chegou a hora de você alçar vôos maiores.

– Como assim?

– Mariana, eu estou com quarenta e quatro anos. O tempo passa rápido para quem vive só e se dedica unicamente ao empreendimento que sonhou. Eu tenho que pensar no amanhã desta editora, no meu amanhã e mais, eu tenho que pensar no amanhã daquela menina com quem me comprometi profissionalmente, mas que aos poucos tornou-se mais que minha funcionária, é meu braço direito e melhor amiga.

– Onde você quer chegar, Ângelo?

– Mariana, eu quero que você seja minha sócia na editora.

Os olhos de Mariana arregalaram. Ela sentiu as pernas bambearem e seu coração disparou. Desde que tomou gosto pelo trabalho com Ângelo, ela passou a sonhar em um dia ter uma editora. Mas sua gratidão, e principalmente, sua relação pessoal e profissional com Ângelo nunca a deixaram sair da empresa. Quando fora promovida a Gerente Editorial, pensou que dali só sairia aposentada. Agora seu sonho se realizava, enfim ela teria uma editora, não só dela, mas uma editora para chamar de sua.

– Isso mesmo, Mariana. Quero você como sócia. Pense com carinho. Não precisa responder agora. Eu vou sair o resto da semana, só volto na segunda-feira, mas no sábado eu quero que você e o Marcos estejam lá em casa para almoçarmos. Ligue na sexta à noite para confirmar.

Mariana começou a chorar. Ela se levantou da cadeira e abraçou Ângelo. Um abraço como aquele, Mariana só tinha dado em Ângelo quando ele entregou a ela e ao Marcos o presente de casamento: uma viagem de lua de mel em Amsterdã. Naquele abraço, Ângelo soube que sua melhor amiga deixaria de se sua funcionária e seria sua sócia.

– Anjinho, agora que você não vai mais se ver livre de mim mesmo, né?

Disse ela enquanto enxugava as lágrimas.

– Posso te perguntar uma coisa Ângelo?

– Claro?

– Aconteceu alguma coisa para você sair assim?

– Aconteceu. Lembra que um dia você me perguntou por que eu não namorava, não tinha casos com mulheres, apesar de rodeado delas?

– Lembro. Você me contou sobre uma “moça” que você está esperando… Peraí! Não vai dizer que…

– Isso mesmo, ela me ligou hoje. Estou indo para São Paulo. Volto na sexta-feira com a mudança dela. No nosso almoço para selar a sociedade, você a conhecerá.

Num impulso, Mariana abraçou novamente Ângelo e sussurrou em seus ouvidos

– Meu anjinho vai enfim se separar da editora para se juntar ao seu amor. Estou muito feliz! Duplamente feliz!

Ângelo saiu pela empresa afora despedindo-se dos funcionários seguido de perto por Mariana. Vai até o estacionamento, despediu-se de sua sócia, entrou em seu carro, deu a partida e pegou a estrada que liga Jundiaí a São Paulo. Voltava para a metrópole, não por motivos profissionais, mas porque sua vida, enfim, ganhou sentido. Agora, ele não era mais da editora, ele era dela, de sua eterna e sempre moça.

Ao colocar os pés na recepção, os oito funcionários da empresa estavam ali sem entender nada olhando para Mariana e seu sorriso de extrema felicidade. Roberta, sempre curiosa mas muito discreta, rompe o silencio.

– Mariana, aconteceu alguma coisa para o chefe sair assim?

– Roberta, quando os sonhos despertam, não é preciso motivos para se correr em direção a eles, basta correr para viver os sonhos que enfim são realidade…

 

Mais uma despedida

Sei que você já se cansou de ouvir o que vou te dizer, sei que você já não quer mais saber de me ver aqui, toda semana, te amolando, ocupando seu tempo. Sei que o que vou dizer você já sabe de cor e salteado… mas eu preciso… eu tenho que dizer que vou continuar minha vida, que vou adiante, mesmo sem você por perto… como é difícil meu Deus!

Hoje eu acordei convicto. Sabe aqueles dias em que você tem certeza que a vida te chamou para um novo momento, uma nova oportunidade? Pois é. Eu acordei assim. Enquanto tomava meu banho e me arrumava, fiquei pensando em tudo o que vivemos até hoje. Os primeiros sonhos que tive com você, quando ainda éramos apenas amigos, as primeiras palavras de carinhos de ambos os lados, as primeiras confissões apaixonadas, o primeiro carinho no rosto, o primeiro abraço caloroso, o primeiro beijo, num amanhecer do dia do meu aniversário… como deixar de lado isso tudo… como passar uma régua nisso tudo…eu não sei. Você vive em mim, em meus pensamentos diários, no ar que eu respiro… meu Deus, como é difícil te escrever tudo isso, como é difícil te dizer que, simplesmente, não vou mais voltar aqui… é isso… não vou mais voltar aqui…

Levantou-se, olhando calmamente para a lápide de sua amada. Olhou para o céu, porém, os olhos marejados não deixou que contemplasse a lua que nascia cheia, redonda, no entardecer paulistano. Respirou fundo, voltou seus olhos para a lápide mais uma vez e murmurou:

até amanhã, meu amor.

Fim de noite

Caía a tarde em São Paulo, fria e seca, como são as tardes do inverno paulistano. Ângelo se inclinava, encostando a testa no vidro gelado de seu apartamento e contemplando as pessoas no vai e vem da rua Augusta, onde morava. Os luminosos dos bares começavam a brilhar e as luzes da cidade começavam, aos poucos, a tomar conta do escuro que dominava, lentamente, a cidade.

Testa no vidro, Ângelo suspirou, vendo o calor do ar por ele expirado embaçar o vidro. Desencosta-se do vidro e vira-se para seu apartamento, todo decorado conforme o projeto de Roberta, sua amiga de infância e arquiteta, que fez de um pequeno apartamento de 40m2 um verdadeiro paraíso particular para se viver. Foi o presente de Roberta a Ângelo, quando ele completou 38 anos, dez de viúvo, dez de perfeita solidão. Desde a morte da esposa, saía de casa raramente. Vendera o apartamento no Brooklin, aplicara o dinheiro, morara de aluguel por algum tempo no Jabaquara e, há dois anos, vivia na Augusta. Fizera do seu apartamento sua casa, seu escritório e seu bar. Fazia ali mesmo, solitário, seu happy hour de sexta-feira.

Naquela sexta-feira de inverno, vendo as luzes e o vai e vem da Augusta, lhe bateu uma vontade, repentina, de ver gente, conversar com pessoas reais, interagir, sem ser via computador ou celular, com vidas. De frente para o espelho, decidiu-se a sair. Tomou banho, mudou de roupa, trancou o apartamento e pegou o elevador. Dezesseis andares depois estava na portaria. Para onde vou? Pensou vendo tantas luzes e se tocando que esquecera de decidir qual pub ou bar ele iria. Cruzou a rua e foi no primeiro que encontrou aberto. Entrou, preferiu o balcão do bar à mesa. A sensação de solidão diminui num balcão de bar. À mesa, sozinho, sente-se mais a companhia da solidão. Sentou-se no balcão e pediu para ver o cardápio de bebidas. A bartender lhe sorri e entrega o cardápio. Pediu uma cerveja e uma porção de calabreza para petiscar. Ao trazer a bebida, a bartender pergunta

–     Esperando por alguém?

–     Não, sozinho, como sempre.

–     Então espera um minuto, não beba ainda.

Ela vira-se de costas, pega uma cerveja para ela, volta-se para ele e diz

–     Prazer, Leila, vamos brindar porque no meu pub ninguém bebe sozinho! Saúde!

Com um sorriso no rosto e sem entender muito a atitude de Leila, Ângelo responde

–     Saúde! Ah, e prazer, meu nome é Ângelo.

–     É eu sei.

–     Como assim?

–     Você mora no décimo sexto andar do edifício aí em frente, a sua vizinha da frente é uma loiraça linda, solteira, bem resolvida e dona de um pub na Augusta.

Disse Leila, sorrindo e se apresentando como vizinha.

–     Ah, você mora na minha frente?

–     Isso mesmo. Já faz um ano e meio. Vem, vamos sentar na minha mesa lá no fundo, acho que a noite vai ser de muito papo.

Deixando para trás o balcão do bar, Ângelo dirige-se ao fundo o pub, onde avista uma mesa, em um canto reservado. Leila era a proprietária do local. Sempre ficava no bar até a chegada das meninas que atendem nele. Ela o viu entrar no pub e o seguiu com os olhos enquanto a recepcionista o conduzia para o bar. Quando um dos garçons fez menção de ir atendê-lo, ela fez questão de pular a frente e assumir seu lugar provisório.

Sentados, o fundo do bar, Ângelo e Leila conversaram a noite toda. Atenta, ela o ouviu contar sua historia de vida, a viuvez precoce, os investimentos financeiros que lhe dão a segurança de vida para viver de seus textos, publicados sob pseudônimos em alguns sites do Brasil. Ele, por sua vez, ficou sabendo que Leila se divorciara de um empresário do ramo imobiliário e recebera, na partilha dos bens, um imóvel comercial e um residencial na Augusta. Levantou um empréstimo, foi morar com a mãe e alugou o apartamento dela enquanto o pub ainda não se sustentava. Há um ano e meio mudou-se para o prédio onde Ângelo também mora, depois de reformar seu apartamento e executar o projeto da mesma arquiteta que fizera o projeto de seu pub.

Quatro e meia da manhã. Sentados no fundo do pub, Leila e Ângelo percebem que a banda já guardou os instrumentos, que os clientes já começaram a sair e os funcionários já recolhem algumas coisas, prevendo o fechamento para as cinco da manhã. Já é sábado. Ângelo pede a conta, Leila recusa receber e, depois de uns minutos de insistência, resolvem rachar a conta. Ele a espera, no canto do pub, enquanto ela fecha tudo e se despede dos funcionários. Portas fechadas, Ângelo olha para a esquina e vê que a padaria do Antonio já está aberta.

–     São cinco da manhã Leila, vamos tomar um café e um pão com manteiga na chapa? Sempre venho esse horário na Padoca do Tonho. O velho até estranha quando não apareço.

Ela nem hesita, o pega pelo braço e segue para a padaria. Depois de muitas risadas com os causos do Tonho, seguem para o prédio. Sempre abraçados. Chamam o elevador, sobrem até o dezesseis. Descem do elevador e para à porta de seus apartamentos.

–   Bem… bom descanso, Leila. Você fez a minha noite muito especial.

–   Você também, Ângelo. Você também.

Viram-se de costas um para o outro e começam a destrancar a porta. Param. Entreolham-se. Correm, se abraçam, se beijam. De repente, dez anos de solidão e dois anos de só trabalho, terminam numa madrugada de conversas, de reconhecimentos, num pub, num gole de cerveja, numa padaria, num café, num pão, em casa, na cama, numa manhã de prazer entre dois corpos, fruto de uma madrugada de prazer entre dois corações. Alma, coração, corpo, reconhecem-se numa madrugada, para fazer da vida uma eterna canção de prazer.

Do passado ao futuro

Vestiu-se com sua melhor camisa, colocou um blazer preto, calça social e sapato. Olhou-se no espelho, conferiu o sorriso e ajeitou a gola da camisa. Pegou seu velho chapéu panamá e uma carta que estava sobre a cômoda e partiu em direção a rua. Caminhou até a esquina de sua casa, tomou um táxi em direção ao outro lado da cidade. No caminho evitou conversa com o taxista, conferiu a carta no bolso e não resistiu, tirou-a e leu novamente. Deteu-se na frase ao final da carta.

Hoje o passado faz-se futuro. Te espero sábado, 23, em minha casa. Sempre te amei.

Uma lágrima correu de seu rosto. Suspirou. Uma hora depois, pagou o táxi e desceu do carro. Estava diante de um edifício que não via há mais de quinze anos. O porteiro o anuncia. Ele entra, caminha lentamente em direção ao elevador e aperta o botão. Décimo segundo andar.

A campainha toca, seu coração acelera. Ao abrir a porta, o sorriso e o olhar são os mesmos. Ela estava linda, de vestido bordado e sapatos baixos. Não trocaram uma palavra. Ele entrou. Ao fechar a porta, se renderam ao abraço, ao calor de seus corpos, ao doce de seus lábios. Sorriram, os olhos marejados de felicidade e prazer os faziam sentir-se adolescentes. E não são eternos adolescentes os que amam? Sentaram-se no sofá, conversaram entre abraços e beijos. Confessaram-se entre olhares e carinhos. Não resistiram mais um ao outro. Não havia por quê resistir. Ela o toma pela mão e vai para o quarto. Em minutos estão com os corpos entrelaçados, amando, realizando sonhos.

Acordaram no meio da madrugada. Ele olhou para o lado e ela estava dormindo. Levantou-se cuidadosamente e pegou um cobertor. Ela acorda, olha para ele e confessa

Você me amou de um jeito…me fez sentir uma mocinha de dezesseis anos.

Ele sorri. São três da manhã. Lá fora a lua ilumina o apartamento e eles nem se lembram que tem mais de sessenta anos, daquele dia em diante, eles eram adolescentes, recém casados, a viver o sonho de um amor.