Não vejo o amanhã

Não vejo o amanhã.
Calei o passado em mim
e ele me cegou o amanhã.

Visito, revisito meu passado.
Procuro o que fui
para saber o que serei.

Nessa eterna viagem
me vejo sem força,
me vejo só,
me vejo vazio.

“guarda ancora quanta vita c’è”
(Vallest/Datti)

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Passará

Sei que um dia passará
a dor que hoje me consome.
Sei que um dia passará
a dor que hoje me faz escrever.

Passará, como uma revoada.
Passará, como o verão que não gosto.
Passará, levando parte de mim.

Sei que um dia passará
essa dor que carrego
na alma, no coração.

“se Il tuo Piccolo dolore
che sia ódio, che sai amoré,
passerá”

(Baldi/Bigazi/Falagiani)

Estanco

Restam páginas em ti,
fiel companheiro,
mas não hei de completar-te.
Ficarás com teu fim em branco,
como em branco encontra-se minh’alma.
Estanco no coração meus versos
esperando o dia em que,
voluntariamente ou não,
eles transbordem.
Mas não voltarei mais às tuas
vazias e ansiosas páginas.
Não verás mais meus olhos
risonhos ou marejados.
Não sentirás mais minhas
mãos calorosas e carinhosas.
Não sofrerás mais a pressão
desta rude caneta de tinta preta
a marcar-te com minhas alegrias,
minhas tristezas, meus sonhos,
meus medos, minhas certezas.
A ti também, fiel caneta,
reservo-te o aconchego
de quem tanto acariciaste
e também maltrataste.
Estanco no coração meus versos
e com eles lá, assumo minha dor.
Estanco no coração meus versos
e com eles lá, retorno ao labor
com minh’alma e meu coração
marcados eternamente.
25/9/9
Gi