Sentimentos

Quer saber a verdade? Seu silêncio não me convence. Mas não vou ficar, aqui, implorando migalhas de sua voz, migalhas de você! Não mesmo! Não fale nada. Suas palavras não vão me convencer, mesmo. Deixe-me com seu silêncio, deixe-me com minhas próprias conclusões. É o que você sabe fazer de melhor! Ser unilateral, decidir por nós, sem me ouvir, sem dialogar. Por que? Por que você insiste em colocar sempre mais um tijolo neste maldito muro de silêncio que nos separa? Por que você não derruba o muro, ao invés de construí-lo? Entender? Eu não consigo, e sou obrigado a aceitar, como um alimento que não gosto e sou forçado a engolir. É isso que você faz comigo. Mas não vou ficar reclamando seu silêncio. Sou imaturo demais, aos seus olhos, para compreender seu silêncio. Sou imaturo demais para compreender meus sentimentos. Sentimentos. Bicho irracional, é isso que me sinto em relação aos meus sentimentos. Incapaz de lidar com eles.

Queria um botão de desligar sentimentos. Não é assim tão fácil. Não se extirpa um sentimento sem deixar marcas. Não se apagam marcas. São eternas. Cicatrizes a nos dizer que, ali, existiu algo que não mais há. Por isso, me pergunto se não seria melhor cultivar os sentimentos, mesmo que para “nada”, ao invés de sufocá-los, puxar pelas raízes e deixar o coração com mais uma cicatriz. De certo, teria que aprender a conviver com ele ali, frondoso, firme, forte e vivo. Não sei. Sei que, se fosse fácil, não seria sentimento. Porque sentir nunca foi essa facilidade toda. O que fazer? Como fazer? Por que fazer? Se amar é uma escolha, por que não conseguimos deixar sentimentos de lado, como se eles nunca houvessem existido? Por que? Porque amar, talvez não seja só uma escolha, seja algo além disso, que não conseguimos definir e que, por isso mesmo, chamamos de amor. Amor. Não os arranco, os cultivo. Por que? Porque sou um amontoado de sentimentos e é assim que gosto de mim. Pago o preço da dor, mas não extirpo de mim esse turbilhão de amor.

Anúncios

Estanco

Restam páginas em ti,
fiel companheiro,
mas não hei de completar-te.
Ficarás com teu fim em branco,
como em branco encontra-se minh’alma.
Estanco no coração meus versos
esperando o dia em que,
voluntariamente ou não,
eles transbordem.
Mas não voltarei mais às tuas
vazias e ansiosas páginas.
Não verás mais meus olhos
risonhos ou marejados.
Não sentirás mais minhas
mãos calorosas e carinhosas.
Não sofrerás mais a pressão
desta rude caneta de tinta preta
a marcar-te com minhas alegrias,
minhas tristezas, meus sonhos,
meus medos, minhas certezas.
A ti também, fiel caneta,
reservo-te o aconchego
de quem tanto acariciaste
e também maltrataste.
Estanco no coração meus versos
e com eles lá, assumo minha dor.
Estanco no coração meus versos
e com eles lá, retorno ao labor
com minh’alma e meu coração
marcados eternamente.
25/9/9
Gi

O guarda-chuva

Ouviu tocar, distante, o interfone. Ergueu a cabeça do travesseiro e olhou para o celular para ver as horas. Quem pode ser às 6h30 de um sábado?? Pensou, enquanto cambaleava com a dormência da perna esquerda até o interfone na cozinha.

Seu Ângelo, está subindo uma moça que pediu para não ser identificada.

Correu, já sentindo a perna novamente, se arrumar, jogou uma água no rosto, vestiu uma camisa e calçou um chinelo. A campainha tocou e ele correu até a porta, ao abrir só pode ver a porta do elevador se fechando. Sem entender nada abaixou a cabeça e deu de cara com seu guarda-chuva.

Ao fechar a porta, guarda-chuva em mãos, pensou rapidamente e correu até a janela. Viu o vulto dela se distanciando, entrando no carro e partindo. Suspirou, pensou em ligar, preferiu não. Sentou no sofá da sala e lembrou-se do dia anterior. Chovia forte e ele estava na porta da empresa sem saber bem como sairia dali. Ela lhe oferecera uma carona até a estação. Ele aceitou. No caminho os olhares e as conversas logo demonstraram que as afinidades do passado estavam presentes. Seu charme ainda o encanta de um jeito incompreensível. Deixaram-se levar pelas lembranças de momentos de amizade sinceras e troca de olhares envolventes e suas mãos acabaram se encontrando. Foram de mãos dadas até a estação, como se aquele carinho nas mãos fosse um elo com um passado, guardado em segredo por eles, preso na malha do tempo e da lembrança. Ao parar o carro para se despedirem, bastou um olhar e um abraço, e tudo ficou calmo dentro dele, apesar do turbilhão de sensações.

Voltou da lembrança daqueles momentos quando seu celular tocou. Correu atender. Do outro lado da linha ouviu uma voz, distante, dizer

não quero nada seu comigo, só seu coração.

E desligou. Olhou novamente para o guarda-chuva, pegou o telefone, ligou para ela. Ao atender, suspirou e concluiu

se não guardas a chuva, guarda-me bem em ti.