Chuva na alma

Por um instante parou no meio da rua e ficou sentindo a brisa suave a tocar-lhe o rosto. Fechou os olhos e lembrou-se de um tempo em que, quem lhe tocava o rosto, não era o vento, mas as mãos dela. Voltou a si, ainda sentindo a brisa, e percebeu seus olhos marejados. Saudade, bateu-lhe uma saudade que não sentia há tempos. Lembrou-se dos sorrisos, das palavras doces, dos sonhos impossíveis. Por um instante, viu-se longe dali, num tempo distante, numa cidade estranha, onde um dia viveu um sonho que não passou de sonho. Rendeu-se ao choro, enquanto sentava-se no meio fio e olhava os carros que passavam, alheios à suas lágrimas e lembranças.

Queria poder voltar no tempo, ter tido a coragem dos destemidos, a audácia dos insensatos, o destempero do loucos. Mas não teve, ele era o que era. Um homem que ama e, por amar, não foi destemido, insensato nem louco. Foi o que é. Há quem o ache um covarde, incapaz de lutar por seus sonhos. Por isso, e tão somente por isso, sentou-se no meio fio e chorou sua saudade. Era o que lhe restava, depois de tanto tempo. Onde estaria? O que estaria ela fazendo? Pensaria ela nele? Seus pensamentos voavam à medida que se questionava. E o que lhe restava era o silêncio, escolha pessoal, que não lhe permitia ter respostas.

Se ela soubesse que eu penso nela, todos os dias, o que ela pensaria de mim?

é o que balbuciava enquanto notou que o tempo virava e as primeiras gotas de chuva começavam a cair.

Queria abrir uma gaveta e colocar ali tudo o que vivera, trancar e jogar a chave fora, mas não conseguia. Como esquecer quem lhe marcara o coração de maneira tão definitiva? Como encarar as lembranças e não sentir o coração apertar em cada marca por ela deixada? Como matar as palavras, os olhares e os gestos que fizeram tão profundas ranhuras em seu coração? Como seria viver sem pensar nela? Como seria viver sem a lembrança de seu sorriso? Como seria viver sem sentir seu perfume toda vez que lembrava de seu nome? Como seria? Queria esquecer. Queria, como queria, mas não conseguia. Porque foi único e verdadeiro o que vivera, e agora, ele segue com suas lágrimas, com a chuva a lhe dar um banho sem, contudo, lavar e levar a saudade que lhe apertava o coração.

Lágrima, chuva, meio fio. Estava prostrado diante da saudade, e esta só lhe acenava com um sorriso amarelo, sem graça, de quem apenas existe e isto, por si só, lhe bastava. Suspirou, ergueu a cabeça e abriu a boca, para sentir as gotas de chuva em sua língua. Coisa de criança que adorava fazer. Levantou-se, tirou os sapatos e as meias e, descalço, seguiu para casa. Ele, a chuva, as lágrimas e a saudade. Se não podia arrancar-lhe do coração, viveria com ela, para sempre, a chover-lhe na alma.

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A espera eterna

Eram sete horas da noite de um outono maravilhoso em São Paulo. Sua idade avançada não a impedia de cumprir seu ritual diário de buscar um velho caderno amassado e gasto pelo tempo. Um presente de um amigo.

Faz tanto tempo…você ainda lembra de mim?

Não resistiu à saudade. Estava viúva há uma semana. Ligou seu computador e buscou pelo nome do autor daqueles textos. Não procurava por aquele nome na internet faziam mais de cinco anos, desde que seu marido adoecera. Não foi preciso muito tempo para romper em lágrimas.

Morto, há três anos.

A nota, encontrada num site de notícias sobre literatura, relatava o motivo da morte e o local onde haviam sido depositadas suas cinzas.

Ele sempre disse que queria ser cremado.

Pensou enquanto se recompunha. Voltou à leitura de seu caderno em meio a lágrimas e soluços. Adormeceu no sofá.

No dia seguinte, às sete da manhã, liga para a nora.

Preciso que me leve num lugar, não comente nada com meu filho.

Pontualmente as dez, a nora e as duas netas estão na porta de sua casa. Vestida de luto, ela pede:

Cemitério dos protestantes, na Consolação.

Durante quarenta minutos ouviu suas netas conversarem sobre meninos, colégio e música. Não abriu a boca. Já próximo ao cemitério, pediu que parassem em uma floricultura. Enquanto foi comprar um arranjo de tulipas, suas netas perguntaram

Quem morreu, vó?

Ela permaneceu em silêncio.

Chegaram ao cemitério.

Esperem aqui.

Lentamente andou por entre os túmulos. Cerca de vinte minutos depois encontrou uma inscrição em uma placa de bronze:

Aqui jaz.
Morreu esperando por seu amor.
Morreu amando uma única mulher.
Morreu amando sua eterna inspiração.
Morreu amando sua moça.

Caiu de joelhos e chorou. Reviveu ali, por um instante, aquele amor. Ela o reencontrou, mas a espera foi eterna.

Um jogo de sedução

Os olhares se encontram pelas beiradas. Sentados lado a lados eles folheiam uma revista e apontam, vez ou outra, para uma foto ou texto qualquer. Ao esticar o dedo para a foto, fazem questão de encostar o braço um do outro. O que apontam? Pouco importa. Que revista estão vendo? Muito menos importante. O que acontece entre eles é um jogo, leve e explícito, de sedução. Vê-se nos olhos dela que ele a faz brilhar. Vê-se nos olhos dele que ela o faz vibrar. Os sorrisos são tão espontâneos que soam melodias divinas. Eros sobrevoa aquela mesa. Mas eles, teimosamente, recusam-se os lábios, recusam-se os abraços, recusam-se as mãos dadas.  Continuam no jogo de sedução e não abrem mão dele.

Num determinado momento os olhares se fixam um no outro. Os rostos se aproximam. O brilho intenso e o sorriso contido em seus semblantes me faz jurar que vi um raio de luz, como se a empatia entre eles estivesse tão palpável quanto o beijo que, na minha opinião, certamente iria acontecer. Mas não aconteceu. Teimosamente eles se afastam. O raio de luz perde sua intensidade e eu fico frustrado em não ver brotar o que eles certamente semearam. Mesmo afastados, seus olhares não deixam de se fixarem, entre uma virada de página e outra, e a pele não deixa de se tocar, alimentando suavemente o que sentem um pelo outro.

Após uma hora de jogo, eles fecham a revista e se levantam. Saem, teimosamente lado a lado e sem se encostar. Caminham vagarosamente numa direção qualquer, embora eu saiba que, mesmo teimosamente afastados, caminhem em direção ao amor. Esse jogo de sedução é capaz de enlouquecer o homem e seduzir a mulher, mas deixa ainda mais ansioso o coração, que deseja amar, e a alma, que deseja voar.

Encontro inesperado

O sábado começava frio e seco, como são os dias de inverno em São Paulo. Ângelo estava sentado junto ao balcão da padaria, tomando um café e comendo um pão com manteiga na chapa, quando sentiu alguém tocar-lhe as costas.

– Desculpe, Ângelo?

Pousou o copo sobre o balcão e virou-se. Deu de cara com um jovem, cerca de dezoito anos, sorrindo-lhe.

– Você é o Ângelo, amigo da Jaqueline, autor dos livros que tem na estante lá de casa?

– Isso mesmo, sou eu. E você?

– Fábio. Filho da Jaqueline. Mamãe me disse que você tinha saído de São Paulo.

– Saí. Já tomou café?

– Ainda não.

– Senta aí.

Pediram mais uma rodada de café e pão com manteiga na chapa. Ângelo havia conhecido Fábio quando ele tinha seus oito anos. Agora era homem feito. Estava surpreso por ver aquele rapaz ali, na padaria no centro de São Paulo. Ângelo havia saído da cidade fazia mais de sete anos. Mudara-se para o interior e depois para a França. Chegara em São Paulo dois dias antes. Fora resolver algumas pendências pessoais e profissionais.

Na conversa com Fábio, pouco falaram sobre Jaqueline. O rapaz contou como foram seus últimos dias. O fim do primeiro namoro, por conta de uma traição dela. O emprego que conseguira duas quadras dali da padaria. Das desculpas que arrumava para sair de casa, como naquele sábado de manhã, que dera a desculpa para a mãe que tinha que resolver algumas coisas no centro da cidade. Ângelo percebe que o rapaz precisava desabafar. Deu corda e foi ouvindo as angústias daquele jovem. Ângelo lembrou-se das conversas com Jaqueline. Fábio sempre fora um menino quieto, gostava de rock e curtia ficar sozinho, no seu canto. O rock foi o pretexto para o convite.

– Fábio, vou emendar até a Galeria do Rock, que espero ainda tenha umas lojas das antigas.

Claro! Estou sem nada para fazer mesmo!

Ângelo pagou a conta e saíram em direção à Galeria. Quinze minutos depois, chegaram e subiram direto para uma loja pequena, no canto.

– Aqui, Fábio, comprei os melhores e mais raros discos da minha coleção. Hoje, com esse negócio de MP3, isso virou artigo de colecionador mesmo.

Ficaram cerca de duas horas ali. Saíram com quatro discos nas mãos cada um. Ângelo fizera questão de lhe dar os discos de presente.

– Fica como lembrança dessa manhã diferente para nós.

Ao saírem da loja, deram de cara com Jaqueline. Em pé, encostada na grade do vão livre, olhando impaciente para a loja. Ao se reconhecerem, Jaqueline gelou. Ângelo olhou em seus olhos, e sentiu o tempo se rasgar e voltar a um passado de amizade, paixão e amor. Virou-se para Fábio, deu-lhe um abraço e colocou na sacola dos discos um cartão com seu e-mail e telefone. Olhou novamente para Jaqueline.

Jaqueline havia seguido seu filho. O vira entrar na padaria, sentar-se ao lado daquele homem que a lembrava alguém, mas não sabia bem quem. Seguira de longe os dois, sem conseguir identificar quem era o homem que conversava com seu filho. Ao vê-los entrar na loja, subiu e pensou várias vezes em entrar na loja. Decidiu confrontar o filho. Esperou até que os dois saíssem. Ela só não imaginava que fosse Ângelo a pessoa que estivesse com seu filho naquela loja.

Os olhares os congelaram por algum segundos. Ângelo sentiu seus olhos marejarem. Foi em direção a ela, deu-lhe um abraço, sentiu-a se acomodando em seu peito, soltou-lhe e despediu-se de Fábio. Saiu dizendo, sem virar para trás:

– Seu filho é um cara muito especial. Parabéns.

Desceu pelas escadas e sumiu no centro de São Paulo. Jaqueline, ainda incrédula, abraçou Fábio e o convidou para almoçar com ela. Ao sentarem no restaurante, ouviu o filho falar sobre como Ângelo fora atencioso e companheiro e como ele se sentiu bem em conversar com ele. Em suas memórias, Jaqueline reviveu as conversas, os cafés, os momentos de alegria e desabafos com Ângelo. Mais uma vez Ângelo aproximava de seu filho, em um momento difícil para Fábio. Mais uma vez, ela era ajudada pelo homem que tanto a ama, mas que fica insistentemente à distância, sem interferir, aparecendo quando menos se espera.