O coração reclama

O coração reclama.
É você longe de mim.
Não suporta a dor da saudade,
não sabe calar a vontade,
o sonho, a esperança, o desejo

O coração reclama
mas não perde a paz
que só você pode dar,
que só você sabe dar,
que só você me dá.

O coração reclama.
É paixão, é desejo,
é vontade, é saudade.

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Você é o amor que quero viver

Estava em seu apartamento, sentado no sofá, quando bateram à porta. Estranho demais, pois não conhecia tão bem assim seus vizinhos a ponto deles virem ao seu apartamento. Levantou-se, foi até a porta e abriu-a. Deparou-se com uma moça, vinte e poucos anos, cabelos longos e olhos cor de mel. Surpreso ouviu um bom dia com um sorriso fascinante.

Bom dia, consegui convencer o porteiro a me deixar subir sem me anunciar, lembra de mim?

Coçou a cabeça como se quisesse estimular a mente. Parecia-lhe familiar, mas não lembrava quem poderia ser. Ela interrompeu os segundo de silêncio:

Fernanda, você foi meu vizinho na Lapa por cinco anos.

Entraram e começaram a conversar. Ele foi até à cozinha passar um café pensando o que fazia ali aquela menina. Ele a vira sair da infância e entrar na adolescência e tinha mais que o dobro de sua idade e estava constrangido sem entender o que ela fazia ali. Chamou-a à cozinha e ficaram ali conversando. Soube que ele foi o primeiro a dar-lhe de presente um livro de Fernando Pessoa. Soube também que ela visitava diariamente seus site e lia compulsivamente seus textos. Ela falou de personagens e situações que ele escrevera que ela achava lindas, intrigantes e fascinantes.

Café pronto, sorveram-no olhando-se por sobre a caneca. Ela era linda, jovem, cheia de vida, ele apenas um cara solteiro de quase quarenta anos de idade. Facilmente ele se encantou com aquela menina. Sentaram-se no sofá e passaram a manhã inteira conversando sobre Antonio Cícero, Fernando Pessoa, Carlos Heitor Cony, Moacir Scliar e outros autores que ambos gostavam.

Após horas de conversa fez-se silêncio. Apenas se olharam, e em seus olhos ele pôde ver algo que não via há muito tempo. Um sorriso que não estava em seus lindos lábios, mas vinha da alma, um sorriso de quem ama por amar e não precisa de um motivo, mas simplesmente do amor. O amor pelo amor foi o que viu em seus olhos. Ela inclinou-se em sua direção, sorriu-lhe, sussurrou seu nome e acariciou seu rosto. Beijaram-se. Era o que ela mais queria desde os treze anos. Ele, em êxtase com o doce sabor de seus lábios, afastou-se assustado. Ela sorriu.

Não me venha com papo de idade, eu sei o que quero, e o que quero é amar. Você é o amor que quero viver.

Por três anos namoraram. Por mais de trinta anos foram casados. Dois filhos. Quatro netos. Anos mais tarde, já na velhice, quando ele morreu, vítima de um enfarto ela calou-se. Os filhos e netos lhe davam alegria, mas ela apenas calou-se e numa fria noite de inverno, deitou-se no sofá de sua casa, com o livro de Fernando Pessoa que ganhara dele em suas mãos e, num suspiro melancólico mas feliz, morreu de amor.

Bela

O que vejo de bela em você?
A palavra amiga
O olhar apaixonado
O sorriso aberto
A boca feliz
O cabelo lindo
Os ombros atraentes
Os seios excitantes
O quadril envolvente
A pele deliciosa
A presença encantadora
A poesia cadenciada
A crônica bem contada
A sua alma generosa
O seu coração apaixonado
Você, do seu jeito,
é a mais bela!

Ilha

À Jacques Brel, que me fez compreender a solidão.

Todo homem é uma ilha
solitária no oceano.*
Neste mar de solidão,
ou te acostumas ao vai e vem
das ondas de sensações,
ou te submerges no mar
e desapareces para a humanidade,
ou te conformas com a tempestade,
ou deixa-te consumir pelo vento,
que te consumirá, querendo ou não,
a menos que te abraces
ao continente do amor.

*Albert Cohen
Chaque homme est seul e tous se fichent de tous e nos douleurs sont une île déserte…
(Albert Cohen)
Cada homem é só e ninguém está nem aí e nossas dores são uma ilha deserta…
(Albert Cohen)