Particularmente

Hoje você estava particularmente linda. O sorriso leve nos lábios, o olhar atento ao que acontecia. Havia em você uma beleza, entranhada a um sentimento que não sei dizer o que era. Havia paz em mim, quando olhava para ti, mas havia também um turbilhão de sensações. Como queria poder viver meus sonhos com você. Como queria poder ser aquele que te acolhe, abraça, faz feliz. Sua beleza me cativou. Cativar. Tornar cativo. Cativeiro do meu coração. Sequestraste-me? Não, fui levado para dentro de ti, pelo suave sussurrar da amizade, pelo fogo intenso da paixão. Fiz-me cativo. Fiz-me? Não sei, só sei que, quando dei por mim, estava aí, dentro de ti, ou seria você dentro de mim? Quem me dera estar dentro de ti! Quem me dera ser alvo do seu pensamento, dos seus suspiros, dos seus sorrisos. Hoje você estava particularmente linda e estou particularmente ainda mais apaixonado.

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Sorriso

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Em silêncio, à distância, contemplo o teu sorriso. Tanto a dizer. Nada a falar. Tanto a sonhar. Sonhar. É o que tenho podido fazer. Sonhar com você, seu abraço, seu sorriso, seu olhar. Há tanto barulho em mim. Ruídos de desamor, de egoísmos, de indiferença. Mas em meio aos ruídos da minha alma, seu sorriso abriu caminho, entrou devagar, iluminando meu interior, afastando a escura solidão, acabando com o gris da indiferença e me trazendo paz. Seu sorriso me dá paz. Paz. Muita paz. Em silêncio contemplo você me inundando de paz.

A cena parece não mudar. Quanto tempo passou depois que eu comecei a te contemplar? Um minuto? Dez? Vinte? Uma hora? O que importa? Ver-te assim, linda, fez meu corpo inteiro estremecer. O sorriso veio fácil em minha boca. Sorriso de satisfação, de desejo, de paixão. Teu sorriso me cativa, faz minha alma renascer. Como eu queria seu sorriso sorrindo para mim. Como que queria seu sorriso me dominando por completo. Queria. Queria. Querer. Querer nem sempre é poder. Por isso sonho. Por isso escrevo. Por isso choro.

Canções me vem à mente. De repente, você curte as mesmas canções que eu, os mesmos assuntos, as mesmas ideias. De repente, o sorriso tá mais vivo, brilha mais, me encanta mais. De repente. Como eu queria, de repente, mudar o mundo, revirar a história, recontar a vida. Como calar os olhos que insistem em buscar teu sorriso? Como calar a razão que insiste em dizer “não-sim”? Como calar o coração que insiste em sussurrar seu nome, no meio da noite, quando o travesseiro acolhe minhas lágrimas pela dor que sinto e que, não se preocupe, não foste tu que causaste?

Mas eu continuo ali, parado, contemplando a cena. O sorriso. Precisa mais que um sorriso para mudar meu dia? Quantos sorrisos teu eu já contemplei? Quantas vezes, inquieto, esperei você? Você não veio. Você veio. Se estás, o sorriso me acolhe. Se não estás, a lembrança do teu sorriso me conforta. Agora mesmo, no meio do ruído da cidade, entre uma demolição e uma conversa por um punhado de dólares, estou aqui, vendo outros sorrisos e me lembrando apenas do seu sorriso, do seu olhar, da sua voz, do seu jeito, de você. O teu nome pulsa em mim. O teu nome corre em minhas veias.

Coração bagunçado esse o meu. Estava de boa, calado, adormecido e entorpecido pela certeza do silêncio e da desilusão de uma espera que se desenha eterna. Agora está inebriado pelo seu sorriso, imerso em você, desejoso de ter você. Coração bagunçado, insatisfeito, mas ainda assim desejoso. Parece que não há mais saída, terei que conviver com a bagunça que tomou conta de mim, começando pelo coração que foi arrebatado pelo teu sorriso, iluminado por ele, alcançado por ele.

A luz do dia, final de tarde, batia sobre seu rosto. O seu sorriso, suave e constante, conversando e saboreando algo, me cativava na mesma medida que me acolhia, me prendia na mesma medida que me libertava, me seduzia na mesma medida que me aconchegava. Como deixar de olhar para esse sorriso? A grama, a árvore, a luz do sol, a pele, o sorriso, você. Queria congelar a cena. Tudo é luz. Tudo é poesia. Tudo é você.

Vendar

Bateu um desejo de me vendar, deixar de ver, para não sofrer. Balela, como se o coração não visse tudo, mesmo oculto dentro em mim.

Tudo que preciso é haurir. Ex-haurir, expulsar de dentro de mim o que me faz sonhar, querer, desejar e viver. Não consigo. Sou fraco demais, sou impotente diante de tudo.

E você continua aqui, do jeitinho que chegou: sem saber, sem querer, sem desejar roubou-me de mim. Devolva-me ou pelo menos tenha a (in)sensatez de sequestrar-me pra sempre.

Você

Hoje eu acordei com você em minha mente. Novidade. Como se não fosse assim toda manhã. Eu não sei como foi acontecer. Mas você está em mim como nunca jamais alguém esteve. Já te disse uma vez: não foi tempestade de verão, foi como um rio, que nasce suave e logo toma conta de todo seu leito. Mas hoje acordei com você em minha mente. Tudo o que fiz e pensei, ao longo do dia, me remeteu a você. O café, a xícara, o aroma, o pão, tudo. Você estava lá. E por mais que eu prestasse atenção nas rotinas do dia, era você que permeava minhas atitudes e pensamentos. Como pode? Tanto tempo sem te ver, e você aqui, pulsando em mim.

Estamos tão distantes. Não nos falamos decentemente faz tanto tempo. E ainda assim você me acompanha em cada momento. Lugares que não estivemos, lá está algo que me remete a você. Sabores que não experimentamos juntos, lá estão sensações que levam a você. Canções que não dividimos, está lá aquela frase que fala sobre você e eu. Incrível. A vida gira, o mundo revira, ainda assim, tudo é você, tudo é lembrança, tudo é esperança.

Ao longo de minha caminhada, até aqui, tentaram te arrancar de dentro de mim. Usaram técnicas persuasivas, quiseram me vitimizar, depois, me culpar, por fim, fizeram o que sempre pedi: me deixaram comigo mesmo. Então, depois de sessões e sessões, descobri uma verdade que já sabia: é impossível, não dá para te tirar de mim. Tenho a convicção que nem mesmo o tempo pode fazê-lo. Você está aqui, já te disse, cravada e marcada eternamente em mim. Eterno. Não dizem que é eterno o amor? Terno e eterno. Dói. Como dói o silêncio. Mas ainda assim, é eterno e terno.

Um dia me disseram que, se eu quisesse, eu poderia te esquecer. Juro que tentei. Com todas as minhas forças eu tentei. Mas não consegui. Eu me apaixonei meia dúzia de vezes desde a última vez que te vi. Paixões bobas, outras mais intensas, mas todas paixões infantis. Todas para tentar preencher uma ausência que, eu sei muito bem, só você pode preencher. Mas amar, amar de sonhar, de querer, de pensar, só um nome me vem à mente: o seu. Mesmo que eu queira, todas as paixões que despertam em mim, me remetem a você. Seu olhar, sorriso, jeito de andar, de falar meu nome. Sua pele, suas mãos, seu perfume. Tudo. Tudo me leva até você.